Após as férias dessas minhas anotações, volto firme e forte.
O dia de hoje foi particularmente especial: o acaso me presenteou e despresenteou. Explico.
Abri a janela veneziana do quarto e encontro uma bexiga pink que me cumprimentou com um bom dia.
Dia vai, coisas a fazer e logo mais depois do almoço, depois do almoço ainda, quase fim de tarde recebo um despresente do acaso: uma borboleta preta morta no chão. Eu sei, parece chocante, mas a princípio foi apenas curioso. Poderia não tê-la visto e seguido a diante mas não restava nada além de interromper a trajetória e brecar com firmeza os passos largos e apaulistanados que adquiri.
O tempo parou. A princípio não pensei no fato como um despresente do acaso e sim me surpreendi apenas com a imobilidade das coisas. O tempo parou pra borboleta; também parei de respirar involuntariamente por um instante e a brisa parou de soprar, como se realmente o movimento tivesse estacionado para todos nós.
Pensei em levá-la embora comigo em um ato inconsequente - sabe quando as crianças arrastam tudo que encontram consigo? Pedra, terra, galhos, papeis de bala...bem dessa maneira quase a levei comigo.
Então percebi que ambas as asas da borboleta preta não tinham a parte de baixo. Só havia meia asa superior de cada lado. Por que ela foi punida? E porque não sobreviveu? Será que as metades de asas eram pesadas demais para carregar ao rastejar pelo chão como se a borboleta quisesse novamente ser lagarta? Ou a derradeira e mais triste opção: será que ela foi incapaz de adaptar-se a sua nova condição com suas asas ao alcance do chão?
Confesso que perdi o sono pensando sobre minhas asas nesse momento.
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